7 de dezembro de 2020

 


Dactilografia

 (19.12.1933)



Destacado e Nítido - Fernando Pessoa


Traço sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano
Firmo o projecto, aqui isolado,
Remoto até de quem eu sou.

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tic-tac estalado das máquinas de escrever.
Que náusea de vida!
Que abjecção esta regularidade!
Que sono este ser assim!

Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavaleiros
(ilustrações, talvez, de qualquer livro de infância),
Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho,
Eram grandes paisagens do Norte, explícitas de neve,
Eram grandes palmares do Sul, opulentos de verdes.

Outrora.

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro.
O tic-tac estalado das máquinas de escrever.

Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,
E que continuamos sonhando, adultos, num substrato de névoa;
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,
Que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão.

Na outra não há caixões, nem mortes,
Há só ilustrações de infância:
Grandes livros coloridos, para ver mas não ler;
Grandes páginas de cores para recordar mais tarde.
Na outra somos nós,
Na outra vivemos;
Nesta morremos, que é o que viver quer dizer;
Neste momento, pela náusea, vivo na outra...

Mas ao lado, acompanhamento banalmente sinistro.
Ergue a voz o tic-tac estalado das máquinas de escrever.

O despertador toca, e o dia começa, hoje, ontem e amanhã. 
Hoje, ontem e amanhã, estou, estive e estarei aqui, no mesmo caminho. 
Na minha consciência noutro sitio qualquer. O sonho... haverá sempre o sonho.
Quando temos seis anos e somos pequenos olhamos muito para o espelho. Mas não nos vemos como somos. Passamos lá horas, rimos, dançamos, falamos. Há nossa volta existem Castelos e Princesas e temos asas que se formam nas nossas costas e nos fazem voar.

Quantos de nós parecemos aquilo que não somos. Os que sonham?

A simplicidade de pensamento está fora do nosso percurso, as ilusões, os desejos e as fantasias... os sonhos! Bem! Os sonhos estarão sempre lá.
Mas o tempo. Esse! Encarrega-se de dizer que os sonhos são só sonhos, e a nossa segunda vida (a falsa), só nos cega, apenas cega para a desilusão diária. 
Com o tempo deixamos de parar em frente ao espelho... mas não deixamos de sonhar, eu acredito que não!





 


A Filha da Floresta - Sevenwaters I - Juliet Marillier



Comecei a ler este livro com uma certa expectativa. Tinha lido boas opiniões e o género é um dos meus favoritos.
Contudo custou a pegar. O início do livro mostrou-se bastante desinteressante e no final do segundo capítulo ponderei mesmo abandonar a leitura. Mas custava-me fazê-lo, o livro não poderia ser só aquilo, e ainda bem que não o fiz.
" Situada no Crepúsculo Celta da antiga Irlanda, quando o mito era lei e a magia uma força da Natureza, esta é a história de Sorcha, a sétima filha de um sétimo filho, o taciturno Lorde Colum, e dos seus seis irmãos."
Esta é uma pequena parte da Sinopse do livro, mas Sorcha é muito mais do que apenas a sétima filha de um sétimo filho. É a criança que os salva a todos.

Mas vamos por partes. Sorcha e a família são Irlandeses, e estes mantém uma guerra aberta com os Bretões. Sorcha vive na floresta com o pai e os seus seis irmãos. A mãe morreu quando Sorcha nasceu.
A guerra é antiga e os filhos são ensinados pelos pais a lutar e a continuar essa mesma luta. Sorcha e mais um ou dois irmãos de Sorcha tem uma ideia diferente sobre a guerra e a sua existência e por isso quando é capturado um Bretão nas terras do seu pai e torturado eles ajudam este a fugir.
A fuga é apenas transitória, porque o bretão Simon está muito ferido, e Sorcha que percebe de remédios e curas é chamada pelo Padre para ajudar na recuperação do Simon.
A história começa a ter algum interesse aqui, o seu relacionamento, a forma como Sorcha tenta salvá-lo a ele mesmo, das suas feridas e dos seus fantasmas.  
Sorcha têm doze anos nesta altura, mas mostra uma maturidade e força incomum para aquilo que aparenta.
Esta história fica a meio, porque Sorcha tem de voltar para casa a mando do pai, que chegou das suas expedições de guerra e traz uma noiva. Confesso que este corte na história fez-me recuar e perder o interesse pelo livro, até a mulher de Lorde Colum no auge da sua ganância transformar os seis irmãos em cisnes. Sim, a mulher é uma feiticeira e destruir era o seu objetivo. Por sorte Sorcha consegue fugir do encantamento, mas fica só.
Na fuga, Sorcha encontra a Senhora da Floresta que lhe mostra o caminho para desfazer o feitiço.

Três anos passam até Sorcha o conseguir, e nesse entretanto a menina torna-se uma mulher, mas a força que emana do seu espírito, sempre desde o início torna-a a mais forte e a única capaz de suportar o caminho que a espera.
Esta história baseia-se num conto de Grimm.
Como diz Neil Gaiman no seu livro "O que se vê da última fila", nada como as histórias de encantar e aquilo que conseguimos fazer a partir delas.

O livro que começou muito tímido, que me desinteressou, que me colocou dúvidas na sua continuação acabou por se tornar viciante a partir de uma certa altura.
Sorcha parecia que a cada momento iria cair, que as suas forças não aguentariam mais as provações impostas para salvar os irmãos.
Mas sempre que parecia que estava no limite, erguia-se e continuava a caminhar o caminho que invariavelmente tinha de seguir.
Muitas das vezes acho que nem Sorcha sabia muito bem o que estava a fazer, apenas sabia que tinha de continuar, e continuar. Que tinha de ser forte, mesmo que não o conseguisse ser.

É uma história de superação, da capacidade que as pessoas têm de se erguerem, de caminharem, mesmo quando aparentam tamanha fragilidade.
Dos sete irmãos, Sorcha era a mais vulnerável, mais frágil, mais nova, mas foi a que ficou com o fardo maior. Nem sempre os irmãos mostraram a gratidão devida à irmã. 

É também uma história de amor, no tempo e no espaço e entre pessoas inacessíveis. É uma história de espera e respeito.
Basicamente aquilo que o amor pode dar com genuinidade.
É uma história de encantar surpreendente. Mais uma vez é deste tipo de livros que me faz gostar tanto de ler!

" - Ele não precisou de encorajamento - afirmou - Acredita, não houve nenhum encantamento. É assim tão dificil de acreditar que um tal homem te possa amar sem a ajuda da magia? Já te olhaste ao espelho? Não sentiste a tua força de espirito, a tua lealdade, a doçura? A ele bastou-lhe o tempo de uma batida do coração para ver essas coisas. Se não fosses tão forte, talvez não o deixasses ir. Talvez a tua história precise de um fim diferente."
E sim, a história de Sorcha teve um fim diferente, um fim merecedor como todas as histórias de encantar!


4 de dezembro de 2020

 


Não venhas sentar-te à minha frente, nem a meu lado 

(28-08-1927)


Destacado e Nítido - Antologia Inédita - Fernando Pessoa


Não venhas sentar-te à minha frente, nem ao meu lado;
    Não venhas falar, nem sorrir.
Estou cansado de tudo, estou cansado,
    E quero só dormir.

Dormir até acordado, sonhando
    Ou até sem sonhar,
Mas envolto num vago abandono brando
    A não ser ter que pensar.

Nunca soube querer, nunca soube sentir, até
    Pensar não foi certo em mim.
Deitei fora entre ortigas o que era a minha fé,
    Escrevi numa página em branco, <fim>.

As princesas incógnitas ficaram desconhecidas, 
    Os tronos prometidos não tiveram carpinteiro
Acumulei em mim um milhão difuso de vidas,
    Mas nunca encontrei parceiro.

Por isso, se vieres, não te sentes a meu lado, nem fales.
    Só quero dormir, uma morte que seja
Uma coisa que me não rale nem com que tu te rales - 
    Que ninguém deseja nem não deseja.

Pus o meu Deus no prego. Embrulhei em papel pardo
    As esperanças e ambições que tive,
E hoje sou apenas um suicídio tardo,
    Um desejo de dormir que ainda vive.

Mas dormir a valer, sem dignificação nenhuma,
    Como um barco abandonado,
Que naufraga sozinho entre as trevas e a bruma
    Sem se lhe saber o passado.

E o comandante do navio que segue deveras
    Entrevê na distância do mar
O fim do último representante das galeras,
    Que não sabia nadar.


Que cansada que estou. Não estamos?!
Cansada de tudo. Por isso se vieres, não te sentes ao meu lado nem fales.
Tenho a cabeça cheia, de vozes, de gritos de desordem... de opiniões. De "importantes" que sabem tudo e tem apreciação para tudo e mais alguma coisa.
Podem desligar a televisão, por favor? Cancelar as notícias... aferrolhar as redes sociais... matar a palavra que persiste, continua e incessante.
E esta música de Natal constante nas ruas o dia todo, como se a festa tivesse mesmo de continuar!

Indiferença! Preciso daquela indiferença ao habitualismo. De saber que estou cá sem cá estar. Sem estar ligado, conectado, relacionado.
Preciso que o Sol nasça porque assim é e por mais nada.
Não me peças nada, nem digas que sou má, não me atires à cara o meu alheamento.
Respeita o meu espaço... respeita o meu silêncio... hoje só quero não estar aqui.




Na escrita de Fernando Pessoa é comum e repetitivo em várias frases e vários versos que eu já li, este tipo de texto...
"Nunca soube querer, nunca soube sentir, nunca soube pensar"
Encontra-se com muita frequência na sua escrita, este tipo de pensamento e sentimento. Parece que Pessoa se sentia verdadeiramente incapaz perante estes sentimentos... se os tinha ou não não sei, mas escrevê-los, isso ele sabia fazê-los e muito bem!





3 de dezembro de 2020

 


Aniversário (15-10-1929)



Destacado e Nítido - Antologia Inédita - Fernando Pessoa

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, 
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino.
O que fui - ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo  em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa.
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas-doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado -,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não pensas! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


Somam-se os dias, apenas e só! O dia de anos não passa de um dia que se soma ao outro. A infância está lá distante e os outros estão mortos.
Tudo mudou! As perspetivas do que era e do que sou não passam de manchas nas paredes da casa que não apanha Sol.
Somam-se apenas os dias, mais nada!
Esqueci-me de empacotar, todos os cheiros e sabores desses dias em que a inocência não trazia mais do que a alegria no canto dos lábios. Esqueci-me de recordar as grandes esperanças que povoavam esses dias. Esqueci-me de abandonar num canto qualquer a melancolia, e transformei-a na ordem natural das coisas.

Tenho uma grande ternura por este poema. Recorda-me a minha infância. Faz-me lembrar os meus aniversários felizes. E sim, nos meus aniversários felizes ninguém estava morto.
Acredito que a nossa inocência perante a vida termina no dia que nos morre a primeira pessoa que preenche o nosso mundo, o nosso contexto.
Mas isso é quando somos novos, crianças e até a morte é algo "novo" e assustador.
Com o passar do tempo, dos anos, dos desgostos e desilusões, com os dias que correm a morte é mais um número, não passa de uma fatalidade.
Hoje tenho saudades da inocência do dia dos meus anos em que a morte não existia. Pelo menos eu não a via.
Acredito que o que mais me faz falta é ser criança e fazer anos! 






2 de dezembro de 2020

 

Destacado e Nítido - Fernando Pessoa

Antologia Inédita



Viver é ser outro - (18-05-1930)

"Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir - é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida.

Apagar tudo do quadro de um dia para o outro, ser novo com cada nova madrugada, numa revirgindade perpétua da emoção - isto, e só isto, vale a pena ser ou ter, para ser ou ter o que imperfeitamente somos.

Esta madrugada é a primeira do mundo. Nunca esta cor rosa amarelecendo por branco quente pousou assim na face com a casaria de oeste encara cheia de olhos vidrados o silêncio que vem na luz crescente. Nunca houve esta hora, nem esta luz, nem este meu ser. Amanhã o que for será outra coisa, e o que eu vir será visto por olhos recompostos, cheios de uma nova visão.

Altos montes da cidade! Grandes arquitecturas que as encostas íngremes seguram e engrandecem, resvalamentos de edifícios diversamente amontoados, que a luz tece de sombras e queimações - sois hoje, sois eu, porque vos vejo sois o que não sereis amanhã, e amo-vos da amurada como um navio que passa por outro navio e há saudades desconhecidas na passagem"


Sem palavras!

Reinventamo-nos então!  A cada dia. Comecemos de novo. Sejamos novos! Não a continuação, mas novos! Como cada dia que nasce.

1 de dezembro de 2020

 


Destacado e Nítido - Fernando Pessoa

Antologia Inédita

(Poemas, Cartas, Escritos íntimos, Textos de Crítica e de Intervenção, Reflexões Filosóficas e sobre Literatura)



Fernando Pessoa naquilo que melhor soube fazer e escrever, e eu, para não o esquecer e o que ele escreveu, desfolho com regularidade a mais, as suas páginas infinitas de prosa e poesia que arranca-me a pele!
Serei tola?!
Será que as palavras que Fernando Pessoa escreveu, algumas com mais de cem anos, tocam-me assim, tão profundamente como se o Fernando Pessoa ou outro dele qualquer estivesse aqui sentado atrás de mim, encostado ás minhas costas. Numa atitude que tanto me irrita!
Irrita, sim! Não suporto o olhar inquisidor por cima do meu ombro, como os mestres de escola do meu tempo. Não sei como eles fazem agora, se mantem a mesma técnica ridícula de intimidar o próximo.
O que sei é que nem Fernando Pessoa e os outros foram, serão mestres de escola, nem tão pouco são de outros tempos, e o que eles escrevem e pensam é tão real, tão atual, tão irremediavelmente feroz na minha capacidade de respirar que o deixo estar, a ele a aos outros atrás de mim, destacado e nítido.

Perdoem-me a minha ousadia e persistência. Perdoem-me se me tornar demasiado repetitiva, absorvente, mas  Dezembro será o mês de Fernando Pessoa e provavelmente dos outros que dele fazem parte.
Por isso neste Blogue, para além das publicações regulares de outras leituras teremos diariamente "Destacado e Nítido" como se a companhia de Fernando Pessoa e dos outros, fosse a ordem natural das coisas.

Vai ser um grande desafio, principalmente porque quero a vossa participação diária. Todos vocês que por aí andam e consideram que as palavras de Fernando Pessoa também fazem parte da vossa vida, gostaria dos vossos comentários aos post´s que vou publicar diariamente.
Espero que acompanhem-me sempre que puderem. Espero que os meus comentários possam merecer sequer a referência a Fernando Pessoa e aos outros...





 


Marvão e Ammaia. O Paraíso Prometido - Séc. XI, no templo do Islão - Florival Lança



"Lê! A procura do conhecimento é um dever de todo o muçulmano! Procurai o conhecimento desde o berço até ao tumulo!"

Sinopse do Livro;
Este romance é uma viagem ao Marão do Século XI, aos seus arredores, retratando uma época em que o Islão dominava o território a que chamavam de Al Andaluz.
Viagem no tempo e no espaço, mas também ao território concreto que, até aos dias de hoje, se mantem inalterado, constituindo em si mesmo um espolio que a humanidade terá de considerar como seu.
Ninguém pode ficar indiferente à beleza rude das penedias que constituem o dominante da paisagem que envolve Marvão, evocando tempos idos, quando tais fraguedos serviam para os seus habitantes de antanho se protegerem de lobos e ursos, cumprirem os rituais da vida e da morte, como muralha defensiva, ou, ainda, de elementos de adoração e divindades obscuras mas de significado tão profundo para esses povos quanto o são as atuais para o homem moderno.
O romance gira em torno de Ahment Mottalib, descendente de uma nobre família árabe, cuja história aqui se conta abarcando o período que vai dos seus seis anos de idade até aos trinta e dois e, em seu redor, gravitam outras personagens tão fictícias como a primeira, descritas em histórias paralelas mas sempre interligadas entre si. Desde as mulheres que cruzam a sua vida, até ao trágico destino de uma delas, mas também dos seus pais e do tutor que, espiritual e academicamente o formou, ou por escravos que se tornaram senhores, saltimbancos transformados em soldados da moirana e depois em assassinos, bem como outros assassinos profissionais contratados para executarem uma diabólica sucessão de vinganças.
Atrevemo-nos também à utilização de personagens reais, gente concreta que viveu e fez história na época aqui descrita. E, uns e outros, todos eles ajudaram a compor um romance que, sem pretensões a ser histórico, se serve um pouco da história para contar "estórias" próprias dum tempo obscuro mas, ao mesmo tempo, fascinante. Por último uma lenda. De uma moira encantada, evidentemente.

Opinião;
Quando visito Marvão fico sempre em alegria, como se o tivesse a fazer pela primeira vez. Vou lá desde os meus oito anos. Tenho raízes familiares a Castelo de Vide. Essas raízes infelizmente já se perderam e o meu regresso a essas paragens, hoje faz-se como muitos que procuram um lugar para explorar. 
Em 2018 voltei após mais de quinze anos de ausência. Castelo de Vide, Marvão e aquelas redondezas serão sempre um porto seguro, e não quero deixar passar mais quinze anos sem lá voltar.
Estar em Marvão dentro daquelas muralhas onde impera o silêncio e onde a nossa vista alcança o inalcançável é devastador e reconfortante. É um sossego para o meu coração.
Marvão e Ammaia, por tudo isto é um livro que não poderia deixar de ler. Encontrei-o nessa visita que fiz a Castelo de Vide em 2018 na única Papelaria/Livraria de Castelo de Vide, onde se pode comprar o jornal, o postal com as fotos da terra e aqui e ali alguns livros... este era um deles. Veio comigo.
O escritor não é conhecido e o livro foi publicado com o apoio da Câmara Municipal de Marvão.
O livro contudo está muito bem escrito e a história está bem construída e estruturada. Dá-nos uma perspetiva diferente do Islão, dá-nos uma perspetiva diferente dos outros... daqueles que são diferentes de nós, mas não são nem melhores nem piores.
Castelo de Vide e Marvão são terras com fortes indícios da passagem de outros povos. As mesquitas, as casas, a forma como as vilas foram construídas. Ainda está tudo lá. Até os próprios costumes e tradições vão "beber" muito a todos os povos que por lá se estabeleceram.
Recomendo o livro, recomendo mesmo... é uma leitura diferente por um autor que não anda nas bocas das estantes das livrarias mas bem merecia andar. Não é definitivamente tempo perdido.